Inadequação Sexual: Quando o Desejo Existe, Mas o Encontro Não Acontece
- Leila Vieira

- 4 de set. de 2025
- 4 min de leitura
E se o problema não for a falta de desejo, e sim a forma como ele se manifesta em cada um?
Essa pergunta abre um campo reflexivo poderoso dentro da sexualidade relacional. Muitos casais chegam à terapia convencidos de que têm um problema sexual grave — mas ao aprofundarmos o olhar, descobrimos um cenário diferente: há desejo, há relações sexuais e até afeto. Mas ainda assim, há desconexão.

“A intimidade erótica precisa tanto de segurança quanto de mistério. Quando há apenas rotina, perdemos o brilho. Quando há apenas tensão, perdemos a paz.” - Esther Perel
É como se cada um dançasse sua própria coreografia, mesmo tentando seguir o mesmo ritmo. Não se trata de disfunção. O nome disso é inadequação sexual — um tipo de desencontro silencioso que afeta casais funcionais.
O que é Inadequação Sexual?
A inadequação sexual acontece quando o casal tem desejo e relações sexuais, mas com frequência vive frustrações práticas, emocionais ou simbólicas na intimidade. Alguns exemplos comuns:
Horário do desejo: um sente vontade pela manhã, o outro à noite.
Conexão emocional prévia: um só se envolve sexualmente quando houve carinho e diálogo fora do quarto; o outro se entrega independentemente do clima emocional.
Estilo de prazer: um prefere o toque lento e sensual; o outro é direto e objetivo.
Padrões rígidos: um só aceita determinadas posições ou lugares; o outro quer explorar novidades.
Frequência do sexo: um se satisfaz com 2 vezes por semana; o outro deseja mais ou menos.
Esses desencontros cotidianos, quando ignorados ou não negociados, podem alimentar frustrações, mágoas, rejeições silenciosas e afastamento.
“Nos damos bem, mas no sexo... trava.”
Essa frase é muito comum no consultório. Casais parceiros, amigos, com uma boa rotina, mas que não conseguem se encontrar sexualmente com leveza. Não há disfunção diagnosticada, mas também não há prazer partilhado com autenticidade.
Muitas vezes o que atrapalha não é a ausência de libido, mas a ausência de sintonia emocional, disponibilidade sensorial ou acolhimento das preferências.
Crenças que alimentam o afastamento
Quando a inadequação sexual não é compreendida, surgem interpretações distorcidas e dolorosas, como:
“Se ele não quer no mesmo horário que eu, é porque perdeu o interesse.”
“Ela só quer quando estamos bem fora do quarto... então não tem desejo de verdade.”
“Talvez com outra pessoa ele(a) fosse diferente.”
Esses pensamentos são alimentados por crenças rígidas sobre sexualidade — muitas vezes herdadas da família ou da cultura. Como afirma o terapeuta Barry McCarthy (2009), “a maior parte dos problemas sexuais não nasce da disfunção, mas da diferença não negociada na expectativa sexual de cada um”.
A Terapia de Casais e a Neuroterapia como caminhos
Na terapia de casais, criamos um espaço seguro para que essas diferenças possam ser nomeadas, escutadas e reorganizadas.
Já a Neuroterapia, com base em neurociência afetiva e emocional, atua diretamente nas crenças limitantes e nos padrões automáticos de comportamento. Ela favorece:
A regulação emocional frente à frustração sexual;
A ampliação da consciência sensorial e corporal;
A ressignificação de experiências sexuais negativas do passado;
O fortalecimento de novas rotas de prazer, intimidade e presença.
Nem toda dificuldade no sexo é disfunção. Às vezes, é apenas inadequação — e isso tem solução.
Inadequação não é desamor
Um dos grandes riscos é confundir desencontro sexual com falta de amor. Casais podem se amar profundamente e ainda assim não se entenderem na intimidade. E quando isso acontece sem conversa ou apoio terapêutico, instala-se o silêncio afetivo.
Ninguém nos ensinou a comunicar desejo sem ferir ou se anular. E muitos casais acreditam que o sexo deveria simplesmente “funcionar” — sem esforço, negociação ou escuta. Isso é um mito.
E se não for cuidado? Os riscos...
Quando a inadequação sexual não é reconhecida, ela pode dar origem a disfunções secundárias:
Falta de vontade de iniciar relações;
Dificuldade em se excitar com o(a) parceiro(a);
Evitação de toques afetivos fora do contexto sexual;
Sensação de obrigação ou tensão durante o sexo;
Disfunções sexuais secundárias (vaginismo, anorgasmia, disfunção erétil emocional).
Por isso, tratar da inadequação sexual é ato preventivo, não corretivo. É cuidado com a saúde da relação — e com o corpo, que sempre avisa quando há excesso de silêncio.
Reconstruir é possível: o que pode ajudar?
A reconexão íntima exige disposição para:
Nomear o que incomoda, sem culpa ou comparação;
Estudar o “mapa do prazer” do outro com curiosidade, não julgamento;
Sair do piloto automático sexual;
Buscar ajuda terapêutica especializada;
Flexibilizar padrões rígidos e abandonar scripts antigos.
Conclusão: Onde há escuta, há reencontro
Se vocês vivem esse desencontro silencioso na sexualidade, saibam, saibam que não estão sozinhos. Isso tem nome e tem causas e tem caminhos possíveis.
A escuta terapêutica pode transformar essa dor em reconexão. Inadequação sexual não é o fim. Pode ser o início de uma nova conversa — mais sensível, mais verdadeira, mais prazerosa.
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